Quando se fala em saúde musculoesquelética feminina, a osteoporose costuma receber maior atenção. Entretanto, as lesões do ligamento cruzado anterior (LCA) também representam um problema relevante, especialmente entre mulheres fisicamente ativas. De acordo com dados epidemiológicos, mulheres apresentam mais lesões de LCA quando comparadas aos homens que praticam esportes semelhantes.
Esse cenário, portanto, não ocorre por acaso. Ao contrário, ele resulta da combinação de fatores hormonais, anatômicos e biomecânicos que, em conjunto, aumentam o risco de lesão.

O papel do LCA na estabilidade do joelho
O LCA exerce função central na estabilidade do joelho, sobretudo durante movimentos de rotação, desaceleração e mudança rápida de direção. Além disso, ele controla o deslocamento da tíbia em relação ao fêmur, sendo indispensável em esportes que envolvem saltos, giros e arrancadas.
Dessa forma, quando o LCA se rompe, o joelho perde estabilidade funcional, o que compromete o desempenho esportivo e, frequentemente, exige tratamento cirúrgico.
Por que as mulheres se lesionam mais?
A maior incidência de lesões de LCA em mulheres não se explica por menor força ou preparo físico. Na verdade, trata-se de uma condição multifatorial. Ou seja, fatores biológicos e estruturais atuam simultaneamente, potencializando o risco.
Fator hormonal: influência ao longo do ciclo menstrual
Os hormônios femininos, especialmente o estrogênio, exercem influência direta sobre os tecidos ligamentares. Durante determinadas fases do ciclo menstrual, ocorre aumento da laxidez ligamentar. Como consequência, o joelho pode apresentar menor estabilidade dinâmica.
Além disso, o estrogênio interfere na síntese de colágeno, elemento estrutural fundamental do LCA. Assim, o ligamento pode tornar-se mais suscetível a forças de torção e desaceleração. Ainda assim, o fator hormonal, isoladamente, não causa a lesão, mas amplifica o risco quando associado a outros elementos.
Fator anatômico: diferenças estruturais relevantes
Paralelamente aos hormônios, diferenças anatômicas contribuem de forma significativa. Em geral, mulheres apresentam quadril mais largo, maior ângulo Q e entalhe intercondilar mais estreito.
Consequentemente, essas características favorecem maior estresse rotacional sobre o joelho. Especialmente durante aterrissagens e mudanças rápidas de direção, o LCA recebe cargas elevadas
Biomecânica do movimento: padrões distintos
Além da anatomia, a forma como o movimento é executado também influencia o risco. De modo geral, mulheres tendem a utilizar menos flexão de joelho ao aterrissar. Além disso, ativam mais o quadríceps e menos os isquiotibiais.
Como resultado, ocorre aumento do valgo dinâmico do joelho, padrão que eleva a sobrecarga sobre o LCA durante a prática esportiva.
Treinamento e prevenção: o que pode ser feito?
Embora fatores hormonais e anatômicos não possam ser modificados, o risco de lesão pode ser reduzido. Nesse sentido, programas de treinamento neuromuscular mostram bons resultados.
Esses programas incluem controle de aterrissagem, fortalecimento de quadril e core, além de exercícios de equilíbrio e propriocepção. Dessa maneira, torna-se possível reduzir significativamente a incidência de lesões de LCA em mulheres.
As lesões de LCA não afetam apenas atletas de alto rendimento. Pelo contrário, mulheres que praticam atividades recreativas também apresentam risco aumentado. Além disso, a lesão pode gerar impacto funcional prolongado, afastamento das atividades diárias e maior risco de artrose precoce.
A importância da avaliação individualizada
Diante desse contexto, a avaliação individualizada assume papel central. Por meio da análise do padrão de movimento, da força muscular e do alinhamento corporal, é possível identificar fatores de risco específicos.
Quando há dúvidas, histórico de lesão ou interesse em prevenção, agendar uma consulta conosco permite um acompanhamento direcionado e baseado nas características de cada paciente.





